sexta-feira, 26 de junho de 2009

Rito de Iniciação

Fomos apresentados. Cara legal. Bastante compreensivo com minhas encanações da época. Saímos várias vezes como amigos, sem nada rolar, apenas para conversar.

Engraçado que me lembro de algumas tontices que eu fazia, como paquerar garotas nessas ocasiões. Sabia que ele ficava chateado, afinal, ele estava lá sendo o Rei da Paciência, e eu, com aqueles jogos (in)conscientes. Hoje olhando para aquela época, compreendo que aquelas eram atitudes de fuga. Fazia aquilo para frisar minha masculinidade, para arrumar uma brecha quando estava assustado com a situação.

Nessas saídas, ele me explicava tudo sobre o “mundo gay”, desde os significados de Barbie, bofe ao famoso radar. Tentava me mostrar quão natural aquilo era. Um dia, uma amiga dele de outra cidade, que curtia garotas, foi visitá-lo. Ela estava mal porque sua namorada havia terminado o namoro.

Foi a primeira garota naquela situação que eu conhecia. Longe dos estereótipos, era uma moça doce, bonita e simpática. Aquilo me deixou bastante à vontade. A conversa estava animada e eu me sentia cada vez mais seguro. Ainda assim, por mais que tudo conspirasse a meu favor, sentia mesmo era vontade de estar com meu amigo (post "Fiat Lux").

Depois do bar, fui levá-los embora. Já com muita cerveja na cabeça, o cara me convidou para dormir lá. Dizia ele:

- Sem maldade. Juro! Os caras que moram comigo estão viajando. Tem quarto só para você.

E lá fui eu.

Tomei uma ducha. Quando ia dormir, ele entrou no quarto. Sentou-se na cama. Eu, por minha vez, afastei-me em direção à porta. Uma cena no mínimo engraçada. Eu da porta e ele na cama. Parecia que havia um precipício no meio e que nenhum dos dois poderia ultrapassar. Nesse posicionamento tático, ficamos conversando. Ao mesmo tempo,
sabia o que ele queria. Estava curioso.

De repente, do nada, sei lá o que aconteceu. Eu caminhei até ele, segurei-o pelos braços e dei-lhe um baita beijo.

Foi meu primeiro beijo em um cara. Uma sensação diferente, barba raspando. Ambos de shorts, foi também a primeira vez que eu senti um pau duro. O meu também estava. Latejava. Daí entendi a expressão “briga de espadas”. E a coisa iria longe se eu em determinado momento não o pegasse no colo e levasse para fora do quarto.

Dormi estranhamente, sem sonhos. Nem bem, nem mal. Não sabia se tinha gostado ou não. No dia seguinte, na mesa do café-da-manhã, ele todo animado. Eu pelo contrário, senti asco. Me dava nojo de tocá-lo. Ele se aproximava, eu me distanciava.

Provavelmente não estava com a cabeça completamente aberta e preparada para o que aconteceu. Pensando melhor depois, também percebi que não queria ficar com ele. Curtia mesmo era meu amigo. O cara serviu mesmo para matar uma curiosidade, ainda que eu não tivesse clareza disso na época.

O destino ainda fez que nesses 10 anos que se passaram eu e o cara que beijei naquele dia nos encontrássemos diversas vezes. Resistindo aos diversos flertes dele, nunca mais tive vontade de beijá-lo. Aquela sensação ruim que ficou depois daquela noite, de um modo ou de outro, permaneceu, ainda que eu tenha nesse tempo, muito mudado.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Coraggioso?

Minha situação: curtindo demais o melhor amigo. Definitivamente o cara era hétero. Nem punha isso em dúvida. O que fazer? Não fiz nada. Me fingi de morto.

O duro é que nessas horas, "nada" talvez seja o pior que se tenha a fazer. Acaba-se por tapar a bomba com um pano, de modo que ela vai cozinhando, se aquecendo e o que em um primeiro momento poderia apenas estalar, quando se percebe, é capaz de um estouro que te tira do eixo.

Voltei a ficar ansioso. Seus convites para sair eram dolorosos. Por um lado, era ótimo estar com ele. Por outro, era angustiante. E já não queria voltar a me distanciar, por achar uma atitude extremamente egoista. Afinal, éramos amigos.

Comecei a prestar atenção em outros homens. Até então nunca tinha me imaginado com nenhum cara fora meu amigo.

Na época, morava em um prédio que tinha outros apartamentos com estudantes. Lá conheci um cara que, apesar de não gritar aos 4 ventos que curtia cara, tinha um buxixo acerca de sua sexualidade.

De conversas de elevador, um dia ele me convidou para ir a uma festa do curso dele. Acabei indo junto com outras pessoas do prédio.

Lá, conheci muita genta, mas nada diferente de uma festa. Até que uma hora prestei atenção na conversa de duas amigas minhas, que apontavam para um cara:

- Que cara lindo. Que corpo!

- É verdade. Eu o conheço. Ele fazia ginástica olímpica até algum tempo atrás. Mas nem adianta olhar. É um desperdício, mas ouvi dizer que o lance dele é cara.

- Duvido. Você tá tirando uma comigo...

E o cara era boa pinta mesmo. Na hora paguei um pau. Mais tarde, fiquei todo felizão quando o amigo do prédio veio apresentar umas pessoas para meu grupo, dentre elas, esse cara. Batemos papo. Ficou por aí mesmo. E dali, fui para casa com o cara na cabeça.

Passados alguns dias, entro no elevador e lá estava o amigo que me convidara para a festa. Já começou me zoando:

- Ae Ragazzo, conquistando corações, hein?! hehehe

- Como?

- O Zé veio perguntar de você para mim. Pagou um pau pra você.

- Tá louco? Tô fora... ehhehe

- Pode ficar tranquilo. Já falei que o seu lance é outro. Tô só tirando uma mesmo... hehe

E o elevador chegou. Despedimo-nos. Duas noites mal dormidas depois, toquei no apartamento de meu amigo de elevador. Com receio de faltarem palavras, fui na estratégia "ou-vai-ou-racha". Mais seco, impossível:

- Ragazzo? Você aqui? Tá precisando de alguma coisa?

- Você já beijou algum cara na vida?

Meu amigo de elevador deve ter passado por todas as cores do arco-íris. Ficou sem ar. Ficou quieto, gaguejou. Ao fim, disse:

- Já. Mas de boa, não comenta,ok? Desculpe ter zoado com você no elevador aquele dia, mas é que achei engraçado meu amigo ter ficado a fim do Ragazzo. Como disse, ele não vai te encher o saco. É um cara sossegado.

- Não é isso, cara. Vim aqui para te pedir duas coisas. A primeira, é que quero que você me apresente a ele. A segunda é que quero que você faça isso de um modo que ninguém fique sabendo.


Ele ficou branco. Achei que ia ter um troço na hora.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Fiat Lux

Se a memória não ajuda na demarcação de tudo que vivemos, ao menos algumas vezes revela alguma cicatriz de alguma brasa do passado. E hoje é sobre uma dessas tatuagens naturais que quero falar um pouco.

Ao contrário de muita gente que diz que se percebeu tendo uma atração por caras desde pequeno, comigo não foi assim. A primeira vez que senti crescendo a vontade de estar junto com um cara, ainda que não fosse, a princípio, de uma maneira sexualizada, ocorreu durante o colegial.

Tinha um grande amigo, com quem a convivência era tamanha que um dia me peguei preferindo estar com ele à minha namorada. Aquilo me assustou. No dia em que me peguei fazendo sexo fantasiando-o, estremeci de vergonha. E ali, ofegante, próximo do gozo, fiat lux. Fez-se uma luz opaca, que cegou os olhos e feriu a alma. Senti-me machucado no orgulho, nas convicções. Como poderia ter aquele desejo que eu mesmo nunca gostaria de ver em um filho?

Tentava me enganar. “Não, Ragazzo, você está só querendo coisa nova. Aventura está no seu sangue. Do mesmo jeito que você curte uma mochila nas costas e dar as caras em um país desconhecido vez por outra, você também está querendo conhecer outras terras sexuais”. Outras vezes: “Não, Ragazzo, o cara é tão seu amigo que às vezes pode rolar uma confusão. É apenas excesso de intimidade”.

Na época morava em uma capital. Estávamos próximos do vestibular. Passei na melhor universidade do estado em um curso muito disputado, relativamente próximo à casa da família, mas preferi estudar em outro estado. Queria fugir de mim. Afinal, quem sabe assim não fugiria daquele sentimento novo também?

Algumas semanas antes de minha mudança, esse meu amigo chegou a mim e disse: “Ragazzo, quer saber de uma coisa? Não passei em nenhuma faculdade. Decidi. Vou mudar com você para lá. Em uma cidade menor ao menos eu vou estudar mais.” Na hora fiquei feliz, mas ao mesmo tempo apreensivo. Afinal, um dos motivos da fuga era ele. E agora me via encurralado.

Moramos juntos por 6 meses. Somente amizade. Ambos com namoradas na capital. Um mês depois, as namoradas rodaram. Afinal, a distância não ajudava. Solteiros, saíamos juntos e percebi que ele me chamava mais atenção do que qualquer garota. Nesses 6 meses, não tinha mais vontade de sair com nenhuma outra pessoa. Até que em um momento eu pensei que se não tomasse uma providência, eu estaria frito. Nunca teria coragem de fazer qualquer coisa com ele. Nem eu sabia exatamente o que queria. Aos poucos me via fora de si. Tinha alterações de humor constantes. Já não me sentia tão dono de minha vida.

Resolvi mudar. Agradeci a ele por ter vindo comigo, mas disse que eu precisava de um espaço maior para mim, que não estava muito bem. Menti que era a mudança, que sentia falta da namorada e tal. Aluguei um apartamento só para mim. Distanciei-me dele e por ora foi bom. Estava aliviado. Voltei a ter atração por garotas e creio que o que eu não tinha feito nos 6 meses anteriores, fiz em triplo nos próximos.

Quando me apaixonei por uma garota novamente, me senti no céu. Pensei: “Era só fase!”. Até que no fim do ano recebi um e-mail de meu amigo, sem entender a razão por eu ter me distanciado. Aquilo pesou. Senti-me mal pra cacete. Fomos nos ver e o fogo cresceu. O pesadelo retornou e dali a um mês arrumei uma solução paliativa. Fiquei com um cara - mas não meu amigo - para tentar entender aquilo. Afinal, ele era meu irmão. Nossa amizade era sacra e não queria fazê-lo de cobaia para algo que eu não compreendia.

Mas o resto da história fica para a próxima semana. Hoje já escrevi demais e quero aproveitar o feriadão.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Meta-Vergonha: a vergonha da vergonha

Conversa de msn com um amigo de longa data, que vive dilemas muito próximos dos meus. Temos mesma profissão, estilos de vida parecidos e, acima de tudo, somos dois grandes cabeças-duras.

- Ragazzo, tô saindo do armário. A sensação de liberdade é enorme.

- Como foi isso, cara? (Pergunta genuína. Afinal, ele vive uma situação muito parecida com a minha.)

- Não falei deliberadamante para muitas pessoas, mas não tô mais encanado de virem a descobrir. Assim, tô mais solto.


- E pro Amigão (amigo dele com quem morou por vários anos)? Como foi contar?

- Pra ele eu não contei, não. Afinal, não tem por que. Não tô namorando.

- Mas, cara. Se você não faz questão de esconder, será que ele ouvir da tua boca não é melhor? Você mesmo diz que ele entenderia numa boa. O que te impede?

- Vergonha.

Ponto de basta. Essa resposta calou minha boca de tão sincera.

O que mais incomoda: estar no armário, pois falta ar nele, ou o motivo de estar no armário? Afinal, o problema é externo ou interno?

Faz muito tempo que considero natural a idéia de sair com caras, um passo dado e pronto. Vivo me dizendo que o problema em me assumir está em mudar a relação dos outros comigo, algo puramente social. Será mesmo?

Com essa resposta de meu amigo que, curiosamente, tinha se "assumido" para pessoas que pouco importavam para ele, mas se mantinha no armário para aqueles que prezava, comecei a pensar melhor sobre algumas antigas certezas.

Tentando deixar de lado algumas "crenças irracionais" à moda do blog que o RP recomendou, do que tenho medo? Sou um cara que não tem dificuldades sociais. Sou rodeado de pessoas bem esclarecidas. Em minha profissão não é o fim do mundo curtir caras. Então, por que me esconder?

A resposta me parece de uma ignorância tremenda, mas infelizmente é algo que ainda não consegui lidar direito: à moda de meu amigo, sinto vergonha.

Depois dessa conversa, tentei pensar em alguns indícios do passado que mantêm essa sensação ativa, movida por um impulso muito mais forte do que a razão.

Lembrei de minha mãe apontando para uma reportagem sobre homossexuais, dizendo que aquela era a pior decepção que qualquer filho poderia dar aos pais. Lembrei de um garoto da 5a série que todos xingavam de bichinha (e uma vez eu xinguei junto) por não jogar futebol. Lembrei do meu pai orgulhoso quando me pegou com uma garota na cama no meio de minha adolescência (imagino o que teria acontecido se tivesse sido um cara no lugar). Lembrei dos amigos sempre xingando de viado o cara mais fracote, o cara mais frágil, o cara mais sensível, e eu, (nem sempre) evitando participar do coro, mas ao mesmo tempo não defendendo. Lembrei e me envergonhei, lembrei e me envergonhei, lembrei e me envergonhei... Lembrei, me envergonhei e me assustei.

Me assustei porque, por mais que não me considere com tais características - e creio mesmo que fiz questão de me distanciar delas exatamente pelo fato de curtir caras e querer mostrar que tinha as qualidades contrárias ao estereótipo -, sempre tive medo delas. Afinal, era o que via apontado. Era o receio de um vir-a-ser isso desde pequeno. Daí a vergonha. É como se tudo aquilo fosse verdade e, uma hora ou outra, fosse despontar.

Além disso, no fundo não entra em minha cabeça como um cara que exerce controle sobre a própria vida, que profissionalmente consegue o que quer, que sempre deu as guinadas que quis, sempre se dando bem, acaba não tendo controle sobre a sua sexualidade.

Se pudesse, escolheria curtir tão somente garotas. Seria mais fácil. Curtir caras, no fundo, me parece uma "fraqueza". E falar dessa "fraqueza" é mostrar que aqui, no íntimo, nem tudo é controlável.

A saída? Acabei me endurecendo, tornando-me uma pessoa que analisa, que observa, que aparentemente se doa como um mecanismo de conquista social, sem realmente se doar.

Sim, sei que haverão posts que dirão "Ragazzo, não é assim", "Ragazzo, esses são estereótipos", "Ragazzo, não há de que se envergonhar", "Ragazzo, não há como se ter controle de tudo", "Ragazzo, permita-se" etc. Eu sei disso tudo e concordo, mas de um ponto-de-vista racional. Agora, vir a sentir isso na carne são outros quinhentos. E por ora, nem Freud explica. Ou melhor, explica, mas não soluciona.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Uma Festa Teatral: bissexualidade em quatro atos.

Uma peça com atores que ora atuam, ora vivenciam...

Ato 1: Uma garota linda da academia com fama de difícil, que não conheço tão bem, mas tenho no orkut, trocando mensagens comigo em meu scrapbook.

- Ragazzo, você vai na festa X? Afinal, a vida não é só trabalho... hehehe

- Nem vou. Tô super apurado. Tenho que terminar uns trabalhos.

- Ah... Certeza que a gente ia se divertir...

Ato 2: Decido ir à festa de última hora. Não aviso ninguém. Encontro uma garota que trabalha sob minha supervisão.

- Ragazzo, blá blá blá blá (ela estava bêbada e não parava de falar).

- É verdade... (resposta que não incentiva o assunto, sem cortar a pessoa, mas deixa claro que você não está no papo)

- Que bom que você concorda! (aproximando-se e falando ao pé do ouvido de uma maneira que não te deixa com muitas possibilidades de escapatória).

- (Você aponta para a cerveja e diz que por culpa dela tem que ir ao banheiro... e some).

Ato 3: Outra garota, antiga colega de trabalho.

- Ragazzzzzzzzzzzzzzoooooooooooooooooooo (gritando de longe).

- (Sorriso amarelo e passadas para mais longe. Essa está mais bêbada ainda).

Ato 4: Uma garota que te vê na pista de dança, conhecida de uma outra festa em que te chamou de "um apelido que te inflou o ego".

- (Sorriso malicioso, puxando você para dançar).

- (Você deixando-se ser puxado para dançar).

- (Ao fim da primeira música, ela te puxa para bastante perto).

- (Sem escapatória, você não vê muitas alternativas. Ela é uma gata, mas a atração é pouca. Está muito fácil. Ainda assim, você pensa: Se eu não fico agora com ela, acabo com meu armário. No fim da segunda música você a beija. Passa mais meia hora com ela. É gostoso, mas não sente aquele tesão. Ao fim, você diz:) Vou dar um oi para meus amigos, senão perco a carona.

- Vou ficar te esperando aqui.

- Logo estou de volta. (Mas você se deixa nesse meio tempo se entreter em um papo com uma amigona que encontrou. Vê ela passando. A que você acabou de beijar te vê de longe fingindo que não viu, mas você nem liga. Você ficou com fama de galinha, mas não está nem aí. Afinal, sabe que o que te tira do sério não é ela. Ou melhor, não são elas...)

Ato 5: Entrando no banheiro, você reencontra o cara do post "A Chave: ambiguidade" saindo.

- Falae Ragazzo!!! (com certa empolgação na entonação).

- Falae cara. Seu nome é mmmmmmm, não? (Fingindo que não tem certeza, apesar de você ter feito questão de decorar para procurar no orkut).

- É esse mesmo... (Em um tom de decepção, que você finge que nem percebe).

- (Você vai mijar achando que fez merda, enquanto ele vai embora. Vocês não se encontram mais na festa).

Clímax: Você fica de saco cheio consigo mesmo. Porra! Deu fora em várias garotas. Ficou com uma mina pela qual você nem estava tão empolgado. E o cara que você estava tão a fim, simplesmente você acabou dando uma gelada. Ok, ok, na festa havia várias pessoas que te conheciam bem. Assim aquele não era um bom momento. Mesmo assim, por que ser tão duro?

Como a imagem é um lance forte. Por mais que eu me sinta acolhido quando fico com garotas. É fato que eu me sinto muito mais vivo quando fico com caras. Com mulheres, o lance é sútil. É gostoso. Com caras o lance é mais animal.

Sou bissexual? Depende do que se considera por tal. Sou em termos de comportamento. Fico com caras e com garotas, porém, no fundo, sei que curto mais caras. Sei que é ali onde eu perco as rédeas. Por outro lado, fico meio sem saber o que fazer em relação a sentimentos. Com garotas, a coisa é mais suave, como em uma valsa. Com caras, o negócio é mais tenso, à moda de um rock pesado.

Também me pergunto se não é insistência minha sair com garotas porque, no fundo, é uma ação esperada de homens, como se não curtir garotas pudesse soar como "ser menos homem", algo já discutido nos comentários do post anterior.

No fim das contas, o melhor mesmo seria não haver essa pressão para se dizer o que se é. Prefiro sempre estar sendo...

sábado, 23 de maio de 2009

Conversa de Bar: o diferente

Após algumas muitas conversas por msn tendo como partida algumas fotos em mais um perfil fake do orkut, fui conhecer um cara em uma cidade próxima.

As expectativas eram altas. Não havia falado ao telefone, que é algo que não gosto de fazer com quem não conheço pessoalmente, mas ainda assim não via muitas possibilidades de algo dar errado. Tínhamos perfis parecidos, profissões semelhantes, gostos afins.

No local marcado, vejo ele vindo de longe. Pensei de longe: corpão! Mas isso as fotos já tinham antecipado. Quando o cara abre a boca, decepção. Não latia, miava.

Na hora deixei de ficar à vontade. Havíamos marcado de assistir um filme que ambos queríamos ver. Na sessão, fazia de tudo para ficar o mais longe possível dele. Suas tentativas de aproximações escusas com a mão eram claramente repelidas, o que em uma película preto-e-branco daria uma bela comédia de tempos chaplinianos.

Me despedi aliviado e assim terminou um pequeno grande conto.

Por que contei essa história? Porque esses dias eu percebi que muitas vezes nos fazemos de vítimas sociais, ao sentirmos que não somos aceitos, quando nós mesmos temos nossas categorizações, preconceitos e mecanismos de exclusão.

Assumo que sou preconceituoso com afeminados, ainda que racionalmente gostaria de não sê-lo. Isso me lembra que também tenho meus problemas em aceitar algumas coisas e, desse modo, como exigir que aceitem qualquer coisa de mim?

Todos temos limites, que nem sempre são iguais. Às vezes sabemos dos nossos, mas nos esquivamos de compreender os dos outros.

Há uma frase-clichê que acho no fundo vazia e simplista: "Se é seu amigo verdadeiro, te aceitará de qualquer modo". Cada um tem seu limite, e é possível que outros modos de se exercer a sexualidade esteja além do limite de seu amigo. Por isso é uma má pessoa? De modo algum. É apenas humano.

O diferente incomoda por diversos motivos. Aquilo que não se entende, que rompe alguns padrões, agride. Agride, pois não se sabe o que esperar. Dói saber que essa perda de controle abre a possibilidade de alteração de toda a estrutura.

Por outro lado, o diferente pode agridir ao se perceber uma semelhança ali também. É o medo de se tornar diferente também. É a possibilidade de vir a ser um diferente. E aqui, meus amigos, talvez resida o meu distanciamento a afeminados.

sábado, 16 de maio de 2009

Meu Ex-quase-namorado

Em uma noite sem um pingo de sono, entrei em um chat, muito mais para passar o tempo do que movido pela expectativa de conhecer alguém interessante.

Conheci um cara simpático, sem ser meloso, que não distribuía sorrisos no msn, passando um pouco até por canastrão. Ou seja, meu número.

Após algumas conversas de msn, marcamos em um bar e quando o vi, pensei: "Agora acertei". Muito bonito, sorriso na medida certa, inteligente, com um humor interessantemente sarcástico, sem contar que acabava de voltar do emprego e usava um terno, um charme a mais.

Ficamos no mesmo dia e nos dias seguintes. Ele trabalhava o dia todo e em seguida vinha me ver. Comecei a me empolgar e vislumbrar a possibilidade de uma relação.

Conversamos sobre isso, me sentia apaixonado. Resolvi contar para algumas pessoas ao meu redor para que eu tivesse maior liberdade para rolar aquela relação. O armário iria finalmente ser aberto. Possivelmente muita gente ia se chocar, mas imaginava fazê-lo por um bom motivo. Marquei um boteco à noite com um amigão e ali ele seria o promeiro a saber.

Antes, porém, tinha algumas reuniões importantes em um dia cheio. Na primeira da tarde, senti o celular vibrando em minhas calças: era meu "quase-namorado". Discretamente, escrevi uma mensagem dizendo que estava em reunião.

Duas horas depois, em outra reunião, recebi uma mensagem. Como nessa havia menos pessoas, não tive como lê-la. Em seguida, outra mensagem, outra, e outra. Pedi licença para ir ao banheiro, pois estava preocupado. Quando li as mensagens, nessa ordem, diziam algo como:

1) Estou com saudades;
2) Por que não me responde? Continuo com saudades.
3) Se não está a fim, por que não diz logo?
4) Desculpe por criar tantas expectativas. Achei que estivesse rolando algo legal.

Estava rolando algo legal, mas naquele momento tudo acabou. A melação e a insegurança dele destruiram qualquer possibilidade de algo ir para frente. Desencantei-me no ato.

Desmarquei com meu amigo para encontrar meu quase-namorado, que agora virara ex-quase-namorado. Olhei-o nos olhos, vi que já não sentia chama alguma e deixei isso claro.

Podem achar o "rompimento" supérfluo, mas o fato é que foi tocado um ponto crucial para mim: minha liberdade e a insegurança do outro. Não preciso fazer sinal de fumaça a cada 3 minutos para dizer que gosto de alguém. Não preciso viver em função de outra pessoa para mostrar que gosto dela. Pelo contrário, gosto de quem sou e quero que alguém ao meu lado goste de si também e, nesse caso, qualquer forma de anulamento é mal-vinda.

O que preciso é ter alguém para quem eu possa chegar no fim do dia, dar um abração e contar o dia, beber uma cerveja bem gelada e rir junto com os amigos, falar coisa séria, falar coisa boba. Se precisar viajar, ou fazer outros programas sozinho, sem problemas, cada um tem suas necessidade. E em noites frias como essa, nada como um outro pé para esquentar.

Não quero alguém para possuir, mas para compartilhar. E isso, meus amigos, está difícil de achar nos dias de hoje, seja qual for a sexualidade que você exerça.

sábado, 9 de maio de 2009

A Divina Comédia dos Três Mosqueteiros

Fim-de-semana morno. Ligação de um ex-rolo de outra cidade, que virou amigão.

- Ragazzo, vamos a uma sauna?

- Sei não. Você sabe que não curto.

- Na pior hipótese você fica no bar bebendo.

Como não tinha mesmo planos para aquele dia, acabei indo. Fomos em três. Três mosqueteiros, cada um com um objetivo diverso, um menos nobre que o outro.

Após quase duas horas de viagem, chegamos. Conhecemos o lugar. Na entrada, uma pulseira-coleira, que vira acessório à mercê da imaginação de cada um. Em seguida, um vestiário cheio de espelhos, onde nos trocamos a miradas que usavam as leis da reflexão para nos alcançarem. Decidi ficar de sunga por baixo da toalha, mais por preocupação com higiene do que por um pudor que já há algum tempo perdeu sentido.

Saindo do vestiário, uma sala com o bar e algumas mesas. Pessoas conversando animadamente. Um local menos sexualizado do que pensei que seria. Dali, duas opções: o céu, por uma porta que leva às saunas a seco e a vapor, onde às vezes rola algo a se observar, com vários anjos-demônios nus sob as duchas em clara exibição; ou se pode tomar as escadas para o inferno, o que fica evidente pelos passos rápidos daqueles que tomam tal caminho. No inferno, uma sala de filmes, alguns quartos privativos e um corredor escuro, onde creio que até o diabo entraria com cautela.

Meus amigos foram direto ao céu e ao inferno, e por ali ficaram. Eu preferi o purgatório do bar, suas conversas desprentensiosamente pretensiosas, seus flertes à distância, sorrisos de lado acanhados, olhares que a todo momento se cruzam.

Alguns vieram conversar comigo. Dei atenção a todos, mas sem esbarrar em meu desejo. Um foi mais insistente, mas não invasivo. Era bastante bonito e inteligente, mas faltava-lhe a presença masculina. Lembrava-me mais um garoto do que um homem.

Durante a conversa, cruzei olhar com alguém que me interessou. Corpo troncudo, pernas grossas, ombros largos, bronzeado, com olhar profundo e sorriso discreto.

Ao mesmo tempo, meu interlocutor, no entanto, não se conformava por eu não me sentir atraído por ele. Perguntava: "por quê?". Diante de uma pergunta tão direta, fui igualmente sincero: "Porque me interessei por outra pessoa.". Levantei-me e sentei à mesa ao lado com o cara que havia flertado à distância.

Cara interessante e charmoso, com voz grave e sotaque carioca. Tínhamos estilos de vida parecidos, com a diferença que ele era casado e eu, solteiro. Ainda não sei em que medida isso afetou meu interesse. Naquele momento ética não fazia muito sentido.

Ficamos. Foi bastante bom. Não transamos, de comum acordo, apesar de os corpos pedirem. Não, naquele lugar, não.

Ao se despedir, pediu meu telefone. Eu perguntei: "Para quê? Você acha mesmo que irá me ligar?". Ele disse: "Pode ter certeza que vou". Trocamos os telefones. Ele disse: "Cuide-se aqui. Já aprontou o suficiente por hoje..." e gargalhou. Eu ri junto e 5 minutos depois estava com outro cara.

No vestiário, meus amigos me esperavam. Um deles curtiu demais o lugar. O outro estava quieto e emburrado, dizendo que tinha se interessado pelo cara que eu dei fora, mas que ele passou o resto do dia inconformado por eu ter escolhido outra pessoa. Creio que teve o ego machucado.

Depois de um mês, cá estou. Athos, que havia curtido a sauna, não vê a hora de voltar. Phortos, que havia esquentado a orelha escutando as reclamações do cara rejeitado não pensa em retornar. Aramis, que vos escreve, pensa que foi uma experiência diferente, que, apesar do preconceito que tem com tais locais, vê que eles têm as suas próprias regras, que não precisam ser as suas e nem devem se impor às suas.

Ah, sim, o carioca não ligou para mim, nem eu a ele, como era esperado...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A Chave: ambiguidade

Aqui no blog ou por msn, volta e meia me perguntam como se aproximar de um cara sem dar pinta, como sacar se o cara curte etc.

Vejamos algo que aconteceu essa semana.

Contexto: uma festa com mais dois amigos, que nada sabem de mim.

Em geral, nessas festas prefiro fazer um social. Conhecer pessoas, fazer contatos, ampliar minha rede. Evito deixar meu desejo fluir muito, ainda que com garotas, tentando permanecer na racionalidade. Faço isso, pois me considero como um dique. Se uma rachadura aparece, é possível que logo em seguida toda a barragem se despedace. Assim vejo meu desejo. Se dou margem a ele em um momento social, tenho receio de não controlar seu alvo e, quando me der conta, estar com segundas intenções em uma situação em que alguém poderia perceber pequenos atos de interesse.

Claro, nem sempre esse controle é possível, principalmente com algumas cervejas na cabeça.

Foi o que aconteceu em uma festa algum tempo atrás, em que fui parar na ducha com um amigo, já relatado em outro post, e o que ocorreu essa semana, ainda que por ora tenha ficado apenas no flerte implícito.

Já estava na festa há algum tempo. Conversava com uma garota, rolo do passado, quando, de rabo de olho, vi um cara bastante interessante passar, com um sorriso bonito, corpo ajeitado e distribuindo cumprimentos. Porte, segurança e sociabilidade são três características que me chamam bastante a atenção.

Mais tarde, andava sozinho pela festa, quando senti alguém puxando meu braço. Virei-me e fiquei surpreso ao perceber que era o mesmo cara que eu havia admirado um pouco antes. Ele começou o papo dizendo que sempre me via entrando no trabalho com uma cuia de chimarrão.

Dei trela à conversa de uma maneira neutra, evitando esboçar muita reação. Ele se esforçava para alongar a conversa, abrindo para diferentes assuntos. A conversa fluiu bem, a ponto de ele pedir meu telefone para combinarmos uma viagem para uma certa cidade, que foi um dos temas que conversamos. Despedimo-nos e, durante a festa, sempre que nos encontrávamos de passagem, ele dava um tapinha em meu ombro.

Claro, o cara me interessou, mas sou precavido. Dois pontos são importantes levar em consideração: "o que me faz crer na possibilidade de que algo role" e "o que fazer no caso de eu estar errado em relação ao interesse dele?".

Sempre me atento a essas duas perguntas, pois é o que me possibilita não ser refém da net ou de ambientes gls e de poder continuar no armário.

Vejamos quais os indícios de minha história que me levaram a uma investida:

1) um cara que conhece um grande número de pessoas na festa dificilmente faz amizade com um estranho. Afinal, abordar um estranho é um indicativo de algum interesse, seja para passar o tempo (usualmente ocorrendo em conversas ocasionais, como em filas de banheiro, ou quando duas pessoas estão meio desencontradas), ou para inserção em algum grupo;

2) se feito um primeiro contato, o outro não se mostra animado com a conversa, a tentativa de manutenção do papo é outro indicativo de interesse;

3) homens não trocam telefones em uma festa, a não ser que tenham algum motivo prático para isso. Quando algum cara pede o telefone do outro, em geral se expõe, pois deixa claro que tem interesse de que quer que o contato se mantenha.

Resumindo. Para mim, a aproximação entre caras em um meio hétero se dá em um certo jogo, em que se testa mutuamente o outro. Nesse teste, tento dar respostas ambíguas, à espera de um novo teste. A afirmativa do interesse se dá pela probabilidade, ao se ter um grande número de respostas ambíguas. Um sim verbal nunca ocorre.

E quais foram minhas respostas ambíguas? Não tentei alongar a conversa. Mantinha-me no assunto proposto. Ao ser convidado para viajar, não me mostrei tão empolgado, mas ao mesmo tempo interessado pelo local. Quando pediu meu telefone, dei-lhe, mas não pedi o dele.

Ambiguidade, ainda que torne a aproximação mais lenta, é meu mecanismo de defesa, de modo que, na aproximação, ajo na exposição do outro e não na minha. Em um segundo momento, no entanto, me exponho na iniciativa.

É o que farei se o cara efetivamente me ligar. E se a história for boa para uma discussão, virará post.

sábado, 25 de abril de 2009

Bem-vindos ao Baile dos Frankensteins!

O que uma relação virtual que se prolonga por dois anos e um encontro explosivo de fim-de-semana têm em comum?

Idealizações...

Relações virtuais frequentemente carregam esse estigma. Bastam algumas palavras bem postas, um senso de humor que transmita leveza, um corpo razoável, algumas palavras que mostrem um pouco de cérebro. Uma receita infalível para que criemos mil expectativas. Ainda que cada um de nós considere-se bem vacinado contra frustrações, é frequente cair nessa emboscada. Esses dias mesmo, me peguei pensando durante a semana em alguém com quem tive duas conversas. Sim, foram papos bastante bons, mas ainda assim foram DOIS papos. E no íntimo, pensamos que conhecemos a pessoa, que é confiável para nos mostrarmos, interna e externamente, nome e pensamentos, imagem e angústias.

Mas, se não deixarmos essas expectativas irem longe demais, chega um momento em que há um estalo e pensamos: "onde é que eu estou com a cabeça?". Afinal, como podem alguns encontros virtuais nos dizer como uma pessoa é? Nem que fossem muitos. Faltam dados, faltam cheiros, faltam tropeções, falta aquilo que não se deseja mostrar e que é facilmente filtrado no msn. Basta se esconder off-line e o seu mau humor não é percebido por ninguém.

Expectativas são próprias de relações virtuais? Tenho acreditado que não. Na Cena 01, falei de um cara e tanto que conheci. Opa, jogo do um erro: qual é a falácia da frase anterior?

Como dizer que conheci alguém, na raiz de tal ação, em um fim-de-semana conturbado? Depois, ainda na fase do deslumbramento, passei dois meses conversando com ele por msn. Um dia ele me disse que eu era um anjo que havia passado na vida dele. Aí parei para pensar. Que anjo é esse? À distância é difícil ver se o que se usa são auréolas ou chifres.

O fim, ainda que seja paradoxalmente temporário, a maioria já sabe como foi, pois já passaram por algo parecido. Tem-se menos paciência para os papos supra-terrenos, na melhor definição de tal palavra. Supra-terrenos, pois não tem um terreno, um cotidiano para se respaldarem. São, sim, conversas divinas, ou melhor, divinizadas. Só que anjos de auréola, ou diabos à distância, cansam. A relação vai esfriando e, após algum tempo, fica a memória de uma relação bonita que na prática não aconteceu.

Pessimista eu? Penso que tenho me tornado realista. Relações que não possuem o quesito cotidiano para sustentá-las se perdem em sua eteriedade.

Um abaixo a relações virtuais? De modo algum, seria uma contradição com esse blog e com as horas semanais que despendo no msn. Creio que tenho visto tais relações como pontos de partida. Por mais que se idealize construir algo, por mais sólido que pareça, o peso e a sustentação só vêm como o tempo, com o dia-a-dia, no sorriso amarelo para a piada sem-graça, no xingão para o arroto escapado, no atraso para um encontro, na bobeira inconveniente que escapa em um momento sério...

Enquanto isso continuo nesse Baile de Frankensteins, com a consciência de que nessa festa o que vejo são apenas pedaços de argila que moldamos à nossa vontade, imagens que constituimos, máscaras formadas com retalhos próprios de quem as usa, mas que podem servir de pistas para os homens por trás de tudo isso. E aí está a possibilidade...

sábado, 18 de abril de 2009

Pessoas-argila: Cena 02

Hoje segue a segunda parte do post iniciado semana passada. Assim, a cama de gato fica feita para, semana que vem, propor uma discussão linkando as duas histórias.

CENA 02: Frankensteins

Três anos já se passaram desde aquela noite em que eu, meio insone com a cabeça cheia por conta de um lance que não se resolvia, fiquei vagando por horas a fio na internet, buscando qualquer um ou qualquer coisa que me aliviasse um pouco aquele incômodo. Não tinha necessidade de falar. Bastava-me escutar/ler/entender que havia mais pessoas que também não se encontravam.

Tentei os chats, dos quais nunca fui muito fã, mas tudo era muito superficial. Conversas que começavam com sexo ou então faziam rodeios para recair em sexo. Não era o que procurava.

Já meio desistente da busca, encontrei um blog que falava de experiências de um bissexual. Comecei a lê-lo e ali me encontrei em diversas passagens. Rolou uma vontade forte de conhecer aquele que postava, que conseguia exprimir com bastante segurança o que eu sentia, mas que ficava entalado.

Após algum tempo, fizemos contato. Movidos a papos interessantes, que fugiam das trivialidades do dia-a-dia, começamos a gostar daquela nova amizade a ponto de mudarmos nossa rotina para que conseguíssemos nos encontrar on.

A distância de nossas moradas era um problema, o que impedia que nos encontrássemos. Teclamos, assim, por quase um ano. Aos poucos fui me envolvendo, coisa que achei que nunca ocorreria, ainda mais em uma relação virtual.

Depois de quase um ano, fizemos um esforço e nos encontramos, ainda que nessa tomada de decisão muita coisa tenha dado errado. Quando o vi, me senti à frente de um estranho. Pensei: "Quem é você? Não conheço seu cheiro, não conheço seu modo de andar. Não conheço o modo como você espirra.". Realmente não tinha idéia daquelas pequenas coisas que não nos damos conta e que nos ajudam tanto na constituição do outro.

Não me senti atraído à primeira vista. Tanta coisa que havia imaginado e ele na minha frente tão diferente. A coisa mudou um pouco depois, insolitamente e simbolicamente, quando tomávamos nosso café-da-manhã e ele, nervoso, deixou cair um pão-de-queijo no chão. Na hora pensei: "Ele é apenas humano, como eu".

Durante a semana, que sabíamos ser a única que teríamos, tentamos em vão aproximar os homens-msn dos homens-reais que estavam frente-a-frente. Não aceitávamos que há coisas que tem seu próprio tempo. No último dia, triste, me sentindo mal por todos os castelos de areia contruídos, fui caminhar em meio a um temporal. Na chuva, coloquei a cabeça em ordem. Para não esquecer daquele momento, marquei-o me desfazendo de algo que eu gostava muito.

No dia seguinte fui embora aliviado. Ainda vi esse amigo algumas vezes. Nossa relação amadureceu e, ao mesmo tempo, esfriou. Há sempre a sombra do homem-msn que paira. Por mais que nos conheçamos hipoteticamente bem, pelas confidências que o anonimato tenha propiciado, faltam peças no puzzle do outro que contruímos com as nossas, o que dificulta o despontamento do homem-real.

No fim das contas, temos Frankensteins com peças nossas, peças dos outros, peças imaginadas, peças que não encaixam bem, que nos assustam quando estamos frente-a-frente ao vermos o mosaico mal montado.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Pessoas-argila: Cena 01

Trago duas cenas. Uma começou no real e terminou no virtual. A segunda iniciou no virtual e se encerrou no real. Ambas, contudo, com algo em comum...

Como o post ficaria muito longo, hoje vocês ficam com a primeira. Semana que vem trago a segunda. E, em seguida, o link, que clareará o motivo do título desse post.

CENA 1 - A Festa dos Ternos

Há alguns poucos meses fui visitar um amigo em outro estado. Acompanhando-o desde a adolescência, não poderia perder o fim-de-semana de festa que este daria em comemoração a um objetivo de vida alcançado.

Chegando lá, resolvi passar um fim-de-semana, uma vez que a viagem não era curta. Primeiro dia de festa, me senti como na música do Legião Urbana "...festa estranha, com gente esquisita, eu não tô legal, não aguento mais birita...". Definitivamente o pessoal da festa estava longe das pessoas com quem me divirto. E naquele dia não estava nem um pouco a fim de fazer um jogo político que usualmente faço bem. Estava em um momento um pouco nostálgico e gostaria de ficar só com minhas lembranças.

E entre algumas conversas sem muito conteúdo, a noite seguia. Fim de festa já, vieram dois caras já bastante bêbados conversar comigo. Bastante bonitos e simpáticos, começaram a conversa me perguntando se não havia assistido determinado filme que, na fala deles, "todos deviam assistir". O papo seguia quando um deles foi xavecar uma garota que passou. A conversa continuou até que o outro falou que ia estourar se não fosse ao banheiro. A cerveja já fazia efeito em mim também e fui junto. Ele foi pro box, eu pro mictório, que ficava ao lado das pias, com um espelho enorme. Quando meu novo amigo saiu do box, vi pelo espelho que seu zíper ainda estava meio arriado. Na hora me deu um calorzão. Quando tirou o paletó para lavar a mão, me dei conta de como o cara, além de bonitão, era forte, com o corpo esculpido pela musculação. Curti mais ainda quando vi um um tribal em seu tríceps. Sem contar que estávamos de terno, o que dava um charme a mais para a ocasião. Terminei de mijar, lavei a mão e nisso, nós conversando. Percebi que nós dois estávamos enrolando para sair. Na hora pensei: "será?...". Olhamo-nos, e rolou aqueles 2 segundos de um olhar preso ao outro. Eu falei: "você não quer sair, né?". Ele respondeu sem graça: "Não". Nos beijamos ali mesmo. Beijo rápido, pois estávamos encanadíssimos de alguém entrar. Saímos.

Lá fora, fiquei super preocupado de alguém perceber. Afinal, meu amigo não sabia nada de mim e, definitivamente, aquele não era um bom modo para ele ficar sabendo. Acabei nem ficando mais à vontade com o cara que havia acabado de beijar. Ele queria voltar e continuar. Chamei-o de louco e disse que estaria em uma festa do dia seguinte, que lá conversaríamos, acabando o papo por ali.

No dia seguinte, fui à festa. Estava bastante cheia e no fundo torcia para o cara não aparecer. Afinal, passada a bebedeira, um milhão de 'serás' vieram à minha mente: "Será que o cara não é queimado?", "Será que é de confiança?", "Será que alguém sacou nosso lance?". De repente, quando estava com um outro amigo conversando no balcão do salão, o cara aparece. Cumprimenta meu amigo como se fossem conhecidos de longa data, zuando, demonstrando bastante intimidade. Aquilo me aliviou um pouco. O cara parecia realmente de boa, amigo da galera e sem nenhum trejeito que a minha bebedeira do dia anterior tivesse me escusado de perceber. Cumprimentou-me, conversamos os três um pouco e ele entrou.

Mais tarde, encontrei-o na pista de dança. Lá, encobertos pelo som alto, conversamos com calma, trocamos telefone, combinamos de nos encontrar na noite seguinte, em que meu amigo não estaria na cidade, o que facilitaria meu sumiço.

No dia seguinte, sumi propositalmente durante o dia. Quando voltei, falei para o pessoal que mora com meu amigo que havia conhecido uma garota, e que havíamos combinado de sair. Falei ainda que ela tinha namorado e por isso tudo tinha que ser muito sigiloso. A história colou.

À noite, ele foi a um jantar para desbaratinar e depois nos encontramos. Rodamos com o carro por bastante tempo. Não parávamos em nenhum lugar com receio de alguém conhecido nos ver, o que contrariaria as histórias contadas para nossos amigos. Terminamos indo para um motel, mais mesmo para podermos conversar com tranquilidade do que para qualquer outra coisa. Palavra de escoteiro!

No motel, o instinto falou mais alto. Estávamos nos curtindo demais, física e psicologicamente. Acabamos transando, mas não foi isso que me encantou nele. Depois da transa, ficamos deitados por bastante tempo falando sobre nossa vida, com uma perna em cima da outra. Um acariciando a coxa do outro, fazendo piadas, rindo, falando coisa séria. Uma cena bonita de se ver. Nada exagerado, nada meloso, apenas uma coxa sobre a outra, sem necessidade de grudar no outro, de limitar os movimentos do outro. As coxas sobrepostas eram o essencial, sem necessidade de mais.

Nessa harmonia instaurada, quase perdemos a hora de deixar o quarto. Na volta, falávamos de nossa vida, medos, objetivos, coisas sérias, coisas bobas. Quando me deixou, ele ainda me convidou para dar mais uma volta antes de ir embora. Senti vontade de ir junto, mas viajaria em algumas horas, sem saber se ou quando o veria novamente.

Nessa hora, a razão desceu como um trovão. Despedi-me e saí do carro. Fui dormir meio alegre, meio triste. Alegre pela noite e pelo cara especial que havia conhecido. Triste, pois era algo assim que procurava e sabia, no fundo, que não sentiria essa sensação tão cedo novamente.

sábado, 4 de abril de 2009

Ameaça ao armário

Essa minha impulsividade ainda me trará problemas...

Postei há duas semanas um lance que aconteceu com um amigo de trabalho no fim de uma festa. Um breve resumo para quem não leu: bêbados, fomos tomar uma ducha depois de termos caído na piscina, e ali nos pegamos.

Na hora foi super excitante. No dia seguinte, sábado, enquanto escrevia o post, me sentia bastante vivo. À noite, saí leve. Ri, conheci gente nova, me diverti. No domingo, contudo, levei um susto quando minha perseguidora (que agora me persegue de um modo diferente, à moda de uma mulher com o orgulho ferido, me alfinetando sempre que pode) me liga: "Ae Ragazzo, nunca pensei isso de você hein (risada cínica)... Quer dizer que agora você e o ------ tomam banho juntos?". Na hora gelei. Senti as pernas bambas, mas sabia que era hora de eu usar todo meu cinismo e racionalidade para evitar quaisquer estragos maiores. Resolvi sondar, jogando um verde: "Por que? Você não daria banho em um amigo bêbado? De onde você vem não é assim, não? Aqui se bebe junto e se vomita junto também!(risada falsamente natural)". Ela riu também e me chamou para almoçar. Minha vontade era xingá-la, mandar ela tomar conta da vida dela, mas racionalizei e percebi que a melhor coisa que eu poderia fazer era ir ao almoço com o pessoal, sondar o que efetivamente viram, sabiam ou desconfiavam.

Lá chegando, nem zoaram tanto. Apenas o normal, sem ultrapassar nenhum limite. Só mesmo a louca da perseguidora que tentava jogar o assunto na roda, mas como o pessoal não curte muito ela, que sempre quer ser a estrela em tudo, não davam trela, até que ela desistiu.

Primeira sondagem, ok, mas precisava de mais detalhes. Fiquei tenso nos dias seguintes, sem saber direito o que havia ocorrido. Pensei em me assumir, afinal, melhor saberem pela minha boca do que ser alvo de fofoca. Não suportaria que tivessem certeza de algo de forma velada. Tranquei-me em casa e me pus a pensar de modo bem racional nas vantagens e desvantagens de me assumir. Cheguei a algumas conclusões, que pontuei:

a) em termos profissionais, não perderia meu emprego nem nada, mas com certeza a imagem de respeito que eu transmito teria que ser batalhada com mais afinco e de modo frequente, pois de tempos em tempos trabalho com um grupo diferente de pessoas, de modo que a cada grupo seria uma nova batalha. Ou seja, desgaste constante.

b) fora amigos de net, 99% de meus amigos são héteros. Sei que alguns, passado um baque inicial, aceitariam numa boa, mas outros entrariam em dilema e, ainda que conscientemente quisessem aceitar, mudariam sua postura comigo. Seria um possível adeus à naturalidade. Não há como desligar de uma hora para outra toda uma criação, concepções de vida e de conhecimento. E mais, não os julgaria por essa impossibilidade. Acho besteira aquele dizer de senso comum "se são seus verdadeiros amigos, vão aceitar". É um modo simplista e dicotômico de ver as coisas. Também tenho meus paradigmas que sei serem difíceis de serem quebrados. Assim, procuro respeitar os dos outros.

c) sou uma pessoa bastante conhecida aqui, muitas vezes por pessoas que eu mesmo desconheço. Assumir que curto caras possivelmente me levaria a ser rotulado por muitas pessoas como sendo parte de um grupo que só me identifico pela sexualidade. O pior é que não teria a possibilidade de estar ali para mostrar como eu sou, como são minhas características, e que estas pouco tem a ver com o rótulo social para homo/bissexualismo. Entraria em um mecanismo de rotulação social que não me apeteceria em nada.

d) em relação às vantagens, não encontrei muitas. Poderia dizer que eu me movimentaria mais livremente, mas não acho que seja verdade. Sou muito ligado, infelizmente, ao que as pessoas pensam. Assim, viveria com receio de ser mal interpretado. Por exemplo, provavelmente, evitaria dar um abraço apertado em um amigão, para evitar que ele pensasse que há malícia no abraço.

e) por fim, em termos de encontrar caras com os quais eu me identifico, creio que me assumir dificultaria as coisas. Afinal, os, digamos, do grupo dos discretos, procuram outros discretos e, uma vez assumido, e conhecido como sou, dificilmente me veriam com alguém sem imaginar que rolasse alguma coisa.

Desse modo, decidi que não era hora para eu me assumir e comecei a pensar estrategicamente como sair da enrascada em que eu me meti. Comecei tentando avaliar o tamanho do problema. Para isso, arrumei um jeito de encontrar o cara que eu fiquei no msn.

Lá ele me explicou que o cara que divide casa com ele foi até o banheiro pra ver se a gente estava passando mal e que da porta escutou uma conversa nossa, que ele chamou de filosofia de banheiro. Depois comentou com a perseguidora, que passou o dia seguinte a cuidar da ressaca de meu amigo. Ela apenas estava me zuando de encheção. Não sabia de nada, tanto que continuava a ficar com o cara.

E ele? Desde aquele dia, só o vi duas vezes, ambas em reuniões que eu presidia. Na primeira, foi bastante constrangedor. Ainda não havíamos conversado no msn. Na segunda, depois de haver esclarecido tudo, estava tranquilo. Conversamos, até fizemos piadas. Na hora pensei: "esse cara é do bem. Creio que uma amizade sem máscaras está nascendo."

sábado, 28 de março de 2009

Narciso e o outro

"Por que se atrair por um igual?"

Há perguntas que volta e meia retornam e essa é uma delas. Retomo-a por um comentário que o Rodrigo fez em um dos posts semana passada. Quando li o comentário, lembrei de um grande amigo que certa vez me disse: "Me transformei em quem eu procuro". Outro amigo uma vez afirmou: "me traio por quem eu admiro". Em meio a essas recordações, me senti convidado a pensar sobre isso.

Em uma relação heterossexual não há como procurar iguais, pois de cara já existe a barreira biológica de dois corpos distintos. Daí fazer sentido falar-se em complementaridade. E entre homens, como isso funciona? Por que buscar um outro que biologicamente tem as mesmas possibilidades que você?

Acho simplista pensar que a resposta se reduza à busca de maior prazer. Creio que isso é sintoma, mas não razão. Vou olhar para mim mesmo à procura de algum insight.

Quem eu procuro? O que eu procuro? Atentando-me ao que usualmente me atrai, percebo que as características que me chamam atenção em outro cara são exatamente as mesmas que possuo e aprecio, ou que não possuo, mas gostaria de possuir.

No fim das contas, acabo me realizando com quem estou junto. dois tornam-se um. Mesmas caracrterísticas, certezas e dúvidas convergentes, ou seja, qualidades e defeitos potencializados por haver dois seres agindo como se fossem um só. Daí talvez a dificuldade do equilíbrio em uma relação entre homens.

O complicado é que, pensando assim, tenho a impressão de que a busca pelo outro é ilusória. No fim das contas, o que buscamos é nós mesmos, ou melhor, buscamos a idealização de nós mesmos e acabamos girando em círculos, impelidos por esse narcisismo sem fim.

Hum... para Lacan esse seria um ponto de basta: Será o meu interesse pelo outro puro narcisismo? O preocupante é que já sabemos como Narciso acaba: hipnotizado pela própria imagem na lagoa de Eco, Narciso definha até o fim de seus dias.

sábado, 21 de março de 2009

Hematomas

Acabei de acordar com dor-de-cabeça, sem conseguir levantar direito o braço esquerdo e com o traseiro dolorido. Andando com um pouco de dor, vou ao banheiro. Me olho no espelho e vejo um vergão na junta entre ombro e costas.

Não, não é o que estão pensando. Recompondo o mosaico de lembranças da festa de ontem, lembro que tudo isso se deve a uma melancia. Sim, uma melancia atômica (aquelas que se enche de Vodka) que estava despedaçada no chão e que, junto à água da piscina e algumas muitas cervejas, propiciou a situação perfeita para eu levar um tombo digno de medalha.

Na hora, nada senti. Hoje, junto a essas lembranças vieram outros hematomas, mais interessantes de serem comentados aqui.

O churrasco era despedida de um amigo que trabalha na mesma empresa que eu. Na festa estavam a minha perseguidora, do post anterior, e o cara que eu havia ficado mais próximo em outra festa (a casa era dele), mas que minha perseguidora havia me feito o favor de melar o esquema (também comentado no post anterior). Também estavam outros amigos e o namorado de uma amiga, que mora em outra cidade, e que até então era lenda para mim.

A noite prometia. Conheci esse namorado de minha amiga. Que cara charmoso! Interessantíssimo! Conversamos por uma boa hora. Deu vontade de dar uma apertada nele. O apito soou. Ali tem coisa. Rolava uma encostada de braços e uma cumplicidade maior do que o usual para uma primeira conversa entre dois caras. A pena é que tiveram que ir embora cedo, pois tinham marcado de ir a um show.

Havia também uma piscina no churrasco. Os primeiros a pular foram a minha perseguidora, que nem tem mais me perseguido (continuo chamando assim para saberem quem é, ainda que ela esteja em um período de calmaria), e o cara da festa passada. Depois que o churrasco esvaziou um pouco, arranquei as calças e pulei também, só de cueca.

A festa foi aos poucos esvaziando. Até a minha perseguidora se foi. Quando percebi, só havia 4 pessoas: eu, o cara dono da casa e com quem já rolava uma afinidade, e dois outros amigos, que estavam conversando próximo à churrasqueira.

Começou a fazer muito frio. Como estávamos molhados, fomos tomar uma ducha quente. Meu novo amigo foi na frente. Os outros ainda brincaram que não era para a gente tomar junto. Contra tais conselhos, fui atrás para ficar conversando. O banheiro estava com a porta aberta, com meu amigo se banhando de shorts. Olhei para ele e meu lado impulsivo, meu lado lobo, tomou conta de mim. Entrei junto, segurei forte os braços dele, virei ele de costas para mim, com ele relutando um pouco. Travei o traseiro dele entre minhas pernas e beijei seu pecoço. Falei baixinho ao pé do ouvido: se você não estivesse gostando, já poderia ter me dado um soco. Ele virou e me beijou.

Tentei tirar seu shorts, mas como o nó estava cego, não consegui. Comecei a acariciá-lo por dentro do shorts mesmo. Contornei seu traseiro. Quando encostei o dedo em seu ânus, ele gemeu e deu um pulo pra frente, dizendo que "tinha preconceito contra essas coisas". Começou a falar que seria bom se tivesse uma mulher com a gente, especialmente "a gostosa da.... (minha perseguidora)". Contou que tinha ido pra cama com ela semana passada e tal (eis a razão da calmaria dela...hehe). Em suma, ao mesmo tempo que estava comigo, sendo acariciado, levando mordiscadas no pescoço e tendo a nuca roçada por minha barba por fazer, fazia questão de ressaltar sua masculinidade, de dizer que aquele era um momento, que o lance dele era mulher e tals.

Hoje parei para pensar nisso. Também costumava falar de mulheres enquanto estava com caras. Era um modo de me iludir de que estar com caras era apenas uma situação instantânea, mas que no dia seguinte estaria de volta às mulheres. Além disso, dizer que também se curte garotas pode se caracterizar como uma característica de masculinidade. É um modo de dizer que curtir caras é secundário, que não nos identificamos com o grupo "gay".

Voltando à história, paramos ali com receio de que algum dos outros dois amigos aparecesse. Ele ainda teve tempo de me dizer que nunca tinha saído com um cara antes. Combinamos de nos vermos novamente outro dia para continuarmos.

O cara me interessa. A dúvida dele mexe com minha libido. Fico motivado para conquistar a certeza dele, mostrar que ficar com caras é bom. Olhando para os motivos que me impulsionam a continuar a brincadeira, assumo: sou um filho-da-puta.

domingo, 15 de março de 2009

A perseguidora

Dessa vez arrumei para a cabeça.

Em janeiro saí com uma garota. Era para ser a saída mais simples do mundo. Fazia um mês que nos conhecíamos, rolava um clima, ela namorava há alguns anos um cara bonitão e iria voltar no dia seguinte para os braços do namorado na cidade em que vivia em outro estado. Tudo parecia ao meu favor. Gata quente e sem complicações pós-noitada. Resolvi fazer uma despedida que ela não se esquecesse e passamos a noite juntos.

Ledo engano. Ela realmente foi embora no dia seguinte, mas começou a me enviar e-mails diários. Um pouco assustado, falei francamente que não rolaria mais. Ela parece que escutou ao contrário, pois terminou com o namorado e mudou-se para a minha cidade, pedindo tranferência para trabalhar no mesmo lugar que eu.

Desde então ela faz sinal de fumaça sempre que pode. Tenta fazer-se presente a todo custo, usando desculpas ingênuas para fazer suas aparições aparentarem coincidências. Isso me irrita, afinal, de bobo e ingênuo não tenho nada.

Além da encheção, tem algo que me preocupa nessa história. Ele me pôs em seu foco de atenção 24 h diárias e isso gera um grave problema. Ela pode começar a se questionar o porquê de um cara (sem falsa modéstia) bem realizado, bonito e inteligente estar solteiro já há um tempo maior do que o esperado. E assim ela poderá chegar a perguntas sobre meu estilo de vida que eu não gostaria que ela se fizesse. Seria um risco ao armário.

Semana passada já passei apuro por conta de algo do tipo. Fui a uma festa em que ela também estava. Lá conheci melhor um pessoal bacana que até então só conhecia de vista. Dentre esses, um cara bastante interessante, com uma voz bastante grave, pernas fortes e um olhar calmo e seguro. Conversamos por muito tempo sobre os mais diversos assuntos, desde filosofia a esportes radicais. Chegamos até a combinarmos de fazer algumas trilhas de bike e acampar, coisas que ambos gostamos. Rolou uma afinidade que um olhar bem treinado já saca.

Já de madrugada, fim de festa, pessoal já zonzo pela bebida, hora de atacar. Combinei com o cara de irmos embora a pé, por conta da bebida e também para continuarmos o papo. Já saíamos à francesa quando a garota sai como um fantasma do carro que estava de carona, dizendo que iria com a gente para fazer exercícios. Tremendo balde de água fria! Queria esganá-la. Além de melar meu esquema, eu ainda teria que arrumar um jeito de ela não pular no meu pescoço na hora de deixá-la em casa. E digo, amigos, não foi fácil, pois ela parecia bastante decidida a me catar naquele dia.

No fim das contas, tive que apelar para a desculpa do "ainda curto a minha ex-namorada", que por mais que faça tempo que não estejamos juntos, não deixa de ser meia verdade, que é reforçada por um mini feedback que tivemos no reveillon.

Achei que ela tivesse entendido o recado, até que meia hora depois eu recebi uma mensagem dela no celular, perguntando se ela não poderia vir dormir em casa. Não respondi. Certifiquei-me que a casa estava bem fechada, apaguei as luzes e dormi como um anjo.

Nessas horas penso que se sair com caras não é fácil, sair com garotas não é menos complicado... hehe

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O lugar que se mostra não-lugar.

Pessoal, desculpem-me a demora para postar, mas tive um pós-carnaval muito corrido.

Tive um Carnaval estranho.

Marquei uma viagem para outro estado com 3 amigos de net. Não curto lugares estereotipados, mas resolvemos ir para um local conhecido por ser bastante open minded. Pensei que talvez fosse uma boa idéia vivenciar algo diferente. No fim das contas, não foi bem o que eu esperava.

Decididamente não me encaixo na cultura gay. Na realidade, nem curto essa palavra. Curto caras, e isso basta. Não preciso me impor rótulos sociais. Nada de homo, bi, hétero, pan ou afins. Prefiro ter a liberdade de ser o que quiser na hora que me apetecer. Creio mesmo é que tais rótulos são dispositivos de controle social, no sentido de a sociedade prever as ações de um indivíduo a partir da etiqueta colada em seu pescoço. Arranquei a minha faz tempo já.

Por que digo tudo isso?

Fui para uma praia, onde tudo me parecia estereotipado. Muitos caras mais velhos e extremamente anabolizados, que me assustavam. Me assustavam, pois, por um lado, pareciam uma frota de bonecos de borracha inflados que dançavam continuamente em um extremo de narcisismo sem palavras. Por outro lado (e isso era o pior), me lembravamm de um possível futuro. Um futuro de solidão, em que as relações são efêmeras, pautadas no tão puro prazer que, por sua vez, focam majoritariamente no aspecto físico. Daí, a meu ver, essa necessidade do culto exacerbado do corpo.

Fiquei com medo de ter em mim um pouco dessa vaidade excessiva. Fiquei com medo de meu próprio narcisismo. Fiquei com medo de ficar sozinho um dia.

Em meu último dia, todos esses temores explodiram em um boom silencioso. A explosão veio por conta de algo insólito para mim, na figura de um cara que conheci lá. Conhecer é modo de dizer. Troquei algumas palvras e algumas frases que, juntas, não dariam o conteúdo deste post. Ainda assim, tive uma grande afinidade, com a vontade de consumar algo que saísse do físico.

Conheci esse cara em uma danceteria. Sim, gls. Odeio esses lugares. Sinto-me em um açougue, mas, uma vez que a viagem era de experimentações, topei a parada. No dia que eu o conheci, ele estava chapado de ecstase. Ainda assim dei dois meio-beijos entre seus abraços compartilhados com metade do lugar. Mas curti seu sorriso e não me saiu da cabeça. Falei meu nome antes de ir embora, certo que nunca se lembraria.

Um dia depois voltei lá. De repente fui abordado. Era ele, que me chamou pelo nome. Fiquei feliz e até surpreendido. A pena era que ele estava acompanhado. Mesmo assim, a química que rolava era tão forte que ele se mantinha conversando comigo, deixando o cara que estava com ele de lado. Em certo momento, cochicharam, viraram-se para mim, foram me puxando aos poucos. Eu, em um misto de constrangimento, atordoamento e excitação fui me deixando levar e, aos poucos, fui participando com maior desenvoltura da brincadeira. Quando percebi, estávamos os três nos beijando e nos pegando.

Apesar da situação interessante e da novidade (até então só havia feito isso com duas meninas e, ainda assim, em outro país), preferia ficar só com o cara. O outro parecia um estranho. Beijava-o também para que não se sentisse de fora, em um ato quase solidário. Triste isso.

Depois de algum tempo, precisei ir ao banheiro. O lugar estava muito cheio. Outro cara me abordou em busca de "papo". Para não ser ríspido, aceitei a conversação. Entre banheiro, papo e caminho, levei perto de uma hora para voltar. Encontrei apenas um dos dois caras que havia ficado e, para não contrariar a regra do azar, o que eu não queria ficar. Disse que o outro me viu com outra pessoa e decidiu ir embora. Esse, por sua vez, quis continuar a brincadeira. Eu virei as costas e também deixei a boate.

Decididamente, não é meu lugar. Voltei da viagem aliviado, certo de que eu não queria aquilo para mim. Questiono se alguém almeja isso ou se simplesmente chega-se a determinado ponto da vida que, na falta de coisa melhor, se rende a isso. Não concebo que se deseje viver assim. Ao menos eu não desejo.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Post Coitum Animal Triste

Tenho uma espécie de diário. Não sou muito sistemático na escrita e, na prática, só escrevo nele quando não estou muito bem. Gosto de abri-lo de tempos em tempos, ainda que em um período de calmaria, como o que vivo agora.

Abaixo segue algo que aconteceu há um ano, em janeiro de 2008. São várias histórias que se cruzam, que aos poucos serão apontadas no blog.


"Instabilidade...

Acordei com um corpo nu ao meu lado. Um corpo bonito, de bruços, dormindo. Acordar é modo de dizer. Havia apenas cochilado. Levantei ansioso para sair dali o quanto antes. Desde o momento do gozo que queria ir embora. Dessa vez havia sido um cretino. Não quis nem beijar, apenas trepar. Acordei com asco da situação. Horas antes havia recebido um presente de Natal da namorada do corpo nu ao meu lado. Também dei o meu: comi o namorado. Depois da jorrada, minha vontade era de sair correndo. Sentia-me refém da situação. Por comodismo ou por dó ou por sei lá o que, decidi ficar um pouco mais. Tentar dormir. Dormi?...ha ha ha Apenas intentava ficar o mais longe possível do outro corpo.

Incomoda-me em geral dormir a dois quando o lance é apenas sexo. Só pedi uma vez para alguém dormir ao meu lado e essa pessoa não aceitou, pois os pais o esperavam em casa. Acho que convidei porque o que menos tínhamos entre nós era sexo. De minha parte, estava envolvido, mas não pelo seu sexo, e sim pela sua pessoa. Quase uma amizade íntima que você tem vontade de aprofundar e materializar, mas não sabe muito bem como.

Mas, voltando... Saí correndo da casa. Nem lavei o rosto. Passei pela cozinha, vi o presente que havia recebido, o que me entristeceu. Deixei-o ali mesmo. Cheguei em casa às 7h da manhã. Queria muito tomar um banho para limpar a sensação de gozo ao redor de meu pau. Dormi um pouco, sendo acordado às 9h pelo celular. "Minha mãe", pensei. Não, era o amigo casado, que estava teclando há alguns dias. Não gostei da surpresa. Senti-me engaiolado na situação em minha própria casa. Era a terceira vez que me ligava em três dias. Essas ligações pareciam amarras para o lobo. O encanto passou naquele momento.

Em meio a tantos aborrecimentos, lembrei muito do amigo que mencionei alguns parágrafos acima como sendo o único que senti vontade de dormir junto. Um dia ele me disse na correria final de troca de mensagens, já que me despedia por estar atrasado para uma reunião: "Ao menos tentamos". Pensando depois, cheguei à conclusão que não, não tentamos. Tentar envolve buscar superação de obstáculos. Tentamos nos conhecer pessoalmente e conseguimos. Foi só. Não tentamos nada além disso. Não tinha como e ambos sabíamos disso antes do encontro, devido à distância geográfica que nos separa. O próprio tom de nossas conversas virtuais já havia mudado. Após quase um ano de conversas diárias, encontramo-nos como duas crianças que tinham receio da chuva prestes a acabar com os belos castelos de areia construídos.

Passei 7 dias em sua cidade, em meio a um turbilhão de incidentes daquela semana atípica, que não colaborou em nada para que efetivamente ficássemos juntos. Fisicamente não nos envolvemos mais do que o privilegiado por uma curiosidade sexual. Sabia disso e receava gozar, pois sabia das consequências. Não gozei, mas os infortúnios vieram assim mesmo. Péssimo dia seguinte . Mal estar sem culpados, sintoma sem doença. Um dia é o que eu preciso para melhorar. Conheço-me. Tanto que nos entendemos bem dia sim, dia não, do ponto de vista físico. Atração por dias alternados. Na hora de ir embora, sem lágrimas, apenas alívio. Dias depois, saudades do que não ocorreu. Saudades da possibilidade de uma vida comum.

Parecemos ter tido medo de nos envolver afetivamente, mesmo como amigos. Mais que isso é improvável pela conjuntura dos fatores. O dia-a-dia é importante e nunca teremos. Atualmente, somos fadados a nos encontrarmos esporadicamente, com um pouco de sorte, no msn. Em algum tempo sem que isso acontecesse, pensei na virada de ano: "Ele foi/é importante para mim. Não sei como, apenas que é. E o paradoxo é que se ele morre um dia, não fico nem sabendo. Pensarei apenas que ele está ocupado demais para entrar no msn ou cansou da troca por vezes pesada de e-mails.". Queria dizer isso a ele em meio a sarcasmos-sintomas, mecanismo de defesa meu que ele percebeu em nossa última conversa cortada, pois na hora uma colega de trabalho chegou e tive que sair para uma reunião com ela. Como ele mesmo disse por e-mail em tom de brincadeira sobre esse corte: "Tivemos um coito interrompido. Precisamos gozar mais juntos." Digo mais: precisamos nos dar liberdade para gozarmos ao menos uma vez juntos.

Estabilidade... "


Um ano depois:

Ainda saio para beber uma cerveja com o "corpo nu", que terminou com a namorada há alguns meses. Nunca mais tivemos nada.

Teclo esporadicamente com o amigo casado, que ficou bastante amargurado com o número de cabeçadas que deu ao longo do ano.

Quanto ao terceiro indicado no post... esse é um caso a parte que ainda não entendo bem. Nos encontramos 3 vezes no meio do ano, em 3 locais distintos, passando no total 3 semanas juntos, como bons amigos. Nada rolou. Depois desses encontros, tivemos uma troca pesada de e-mails. Achei que não fossemos mais nos falar, mas voltamos a boa amizade há 2 meses. Há 3 semanas, marcamos um almoço que se estendeu para a janta, em uma conversa que durou 6 horas, que foi vivenciada em 2 minutos de tão prazerosa. Demo-nos um abraço forte de despedida, que me deixou zonzo e sem rumo por 15 minutos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O amigo da academia

Acabo de chegar de um restaurante. Fui com um amigo da academia, com quem não saía fazia já uns 2 anos.

Cara gente boa, conheci na própria academia onde malho. Na época, saímos para tomar umas cervejas. Cara super boa pinta, mas nunca havia passado pela minha cabeça que ele pudesse curtir. Até que um dia, um amigo da cidade vizinha, conhecido de net, disse que teclava com um cara que tinha o perfil que curto: no armário, barba por fazer, corpo malhado, que curte cerveja e viagens.

Marcamos um dia para sair. Fui mesmo pela curiosidade, pois nunca tinha passado por tal situação. Quando vejo o cara, a grande surpresa. Era meu amigo da academia. Na hora, ambos ficamos calados, sem saber o que dizer. Não conseguíamos nos olhar nos olhos. Constrangimento total.

Entretanto, como nos víamos todos os dias na academia, aos poucos o gelo foi quebrando. Voltamos a conversar como antes. Marcamos mais uma cerveja, a princípio, sem maldade nenhuma.

Fomos ao boteco de sempre e, para não fugir da regra, enchemos a cara. Na volta, ele foi me deixar em casa, só que não estava nem um pouco a fim de sair do carro. Ele sacou, continuou guiando. Fomos a um lugar meio ermo, em um bairro perto.

No carro, o de sempre. Quando fico com um cara, não me seguro. O lance é muito intenso e acho que essa energia acaba sendo compartilhada. A situação ajudava. Estávamos em uma estrada de terra sem postes de luz. Só a luz da lua mesmo. Fiquei louco quando ele disse que nunca havia dado para um cara, mas que para mim ele faria. Mas como estávamos sem proteção necessária, não rolou.

A conquista é minha propulsora. Não dá para imaginar o tesão que sinto quando vejo um cara com cara de machão, que não dá pinta, se render para mim, melhor ainda se eu perceber em sua voz um tom de receio, quando as palavras saem com dificuldade. É indescritível!

Voltando à história, tudo ia muito bem. Até que decidimos voltar, porque íamos acabar indo muito longe e estávamos sem proteção. Na hora de retornar o carro, não vimos que existia um burado na borda da estrada, onde o carro entrou.

Ficou preso. Não tinha como tirá-lo de lá. Iríamos ter que chamar um guincho, mas nenhum dos dois tinha o número. Caminhamos como dois tontos envergonhados para a casa mais próxima para pedir a lista.

Quando abriram a porta, novo susto. Quem atendeu conhecia meu amigo da academia. Meu amigo, gaguejando, falou que o carro tinha enguiçado. Gelei até que escutei o cara dizer: "Empresto a lista, mas só se vocês prometerem me chamar a próxima vez que forem fumar um". Aliviei total. Melhor passar por maconheiro do que ter o armário despedaçado.

De lá, fui para casa. Ele me ligou no dia seguinte, no outro, e no outro também. Mas desde o momento que ele me deixou em casa, sabia que não ficaria mais com ele. É triste saber, mas o mesmo que me encheu de tesão na noite anterior era o que me distanciava dele. A conquista para mim é o pico da relação. Quando passo por esse pico, meu interesse cai bruscamente. Não há explicação aparente e é algo que me incomoda por vários motivos. Primeiro, porque muitas vezes rola uma química animal com algumas pessoas que saio que, por sua vez, criam a expectativa de que foi tão bom, que é certo que vai continuar rolando. Outra, porque assim não consigo manter nenhuma relação com um nível satisfatório de interesse e satisfação por muito tempo.

Esse é um dos motivos que abri esse blog, o que aconteceu depois de um fim-de-semana que saí com um cara e com uma garota, ambos extraordinários. Ainda que cheios de qualidades, não senti vontade nenhuma de voltar a sair com nenhum deles. Quem sabe abrindo e discutindo um pouco de minha vida não me ajuda a entender melhor essas minhas ações?

E hoje, após dois anos, o que aconteceu com o cara? Ele voltou a me interessar. Quando? No dia em que o vi com uma garota. Me despertou desejo ver ele apertando aquela garota, pensando: "já apertei ele mais forte que isso!". Fiquei com ele hoje? Não. Fiquei com vontade de dar um beijo, mas não dei. Fui racional, ainda que ele me olhasse no carro com aquela mirada de cara safado. É um cara do bem e não quero zuá-lo de novo. Além disso, talvez viajemos juntos no carnaval e realmente não seria uma boa idéia que houvesse algo mal resolvido entre nós nessa época.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Gripe mal curada

Faz 5 minutos que um de meus melhores amigos saiu de casa, após uma noite de bebedeira que já combinávamos há meses. Ele acabou de terminar um trabalho e queríamos comemorar. O que isso tem de especial?

1- É o único amigo hétero-normativo que sabe que eu curto caras

2- É o cara que mais me deu e dá tesão na vida

3- Por conta dos ítens 1 e 2, vivo testando os limites dele e dessa vez acho que passei do ponto...

Dificilmente não consigo o que quero, mas esse cara foge à regra. E isso faz minha libido atingir níveis espaciais. Tenho pleno controle sobre meu corpo, mas ao lado dele viro um bicho, sou puro instinto.

Uma história longa que começou há alguns anos. Trabalhamos juntos e logo nos aproximamos muito. Trocas de olhares e cumplicidade eram constantes. O clima que rolava era forte, intenso. Toda semana ficávamos em casa assistindo filmes, cada um acariciando o próprio peito em demonstração de masculinidade. Tomávamos banho com o outro admirando, usando a desculpa de manter a conversa que não poderia ser cortada por isso. Ensinava-me algumas técnicas de Jiu Jitsu. Delírio animal. Cinco minutos depois que saía de casa, eu fazia questão de continuar o coito interrompido nas preliminares.

Mas como um cara que namora há 10 anos sem nunca sequer ter beijado outra garota nesse meio tempo lida com isso? A resposta é simples. Não lida. Aceita os olhares, as carícias, as provocações. No momento que ficou demais para mim, tomei a decisão mais racional que poderia ter feito: chamei-o para um parque e despejei o que acontecia, frisando que tudo que queria era que não ocorresse mais.

Não, não era hipocrisia. Por mais que um lado meu realmente quisesse que algo rolasse, o outro sentia exatamente o contrário. Por quê? Porque era um grande amigo, com a família estruturada, namorada perfeita, vida sossegada. Nunca teve problemas para lidar e sei que piraria se as dúvidas chegassem ao mesmo patamar das que tenho. Muitos diriam que ele (ou eu) se engana. Não vejo assim. É uma escolha que ele fez. Mesmo se ele tivesse certeza que curte caras, não acho que assumir para si mesmo é a chave para uma vida feliz. Isso é conto-de-fadas. Digo por mim mesmo. Vivo uma vida paralela à base de conquistas e mais conquistas. Sou mais feliz depois de aceitar que também curto caras? Sinceramente, não sei. Acho que não. Tudo ficou mais complicado desde então.

Ele escutou calado. Disse que entendia e que não deixaríamos de ser amigos por isso. Na hora de ir embora me deu o abraço mais apertado de minha vida.

No dia seguinte não apareceu mais. Nem no outro. Muito menos no seguinte. Sumiu por 6 meses trabalhando em casa, possibilidade que o emprego que temos nos proporciona. Não avisou ninguém. Desapareceu do círculo de amigos, que me perguntavam sempre o que havia acontecido. Afinal, éramos como unha e carne. Eu mentia dizendo que nada sabia e, no fundo, sentia alívio de não o ver mais.

De repente ele reapareceu, mas só para mim. Não falou mais com nenhum de nossos velhos amigos. Não nos vemos mais com a mesma frequência, mas volta e meia ele vem em casa. Ontem foi um desses dias. Chovia. Bebemos muito. Matamos uma garrafa de sake, uma de vinho, várias de cerveja. Dei-lhe um meio selinho, encenando uma história que contava. Ele assustou, mas não disse nada. Comecei a acariciar sua nuca, suas costas, a barba por fazer. Perguntava: "te incomoda?". Ele dizia que não, mas que era estranho um amigo fazer isso em outro. Depois de algum tempo assim, ele levantou repentinamente e disse que ia dormir. Sabia que fazia isso para escapar da situação. Coloquei-o em um colchão ao lado de minha cama. Falei a verdade. Disse que ele nunca me barrava e eu acabava testando mais e mais os seus limites. Ele assumiu que realmente tinha ficado incomodado.

Estava possesso, fora de mim. Não de raiva, mas de excitação. Quando senti sua respiração mais pesada, indicativo de que dormia, coloquei minha mão sobre seu cobertor. Senti seu pênis. Coloquei a mão por dentro do cobertor. Senti melhor. Esquentei, rubrei. Ele se virou. Não consegui dormir a noite inteira e sempre que ele virava com a barriga para cima, tocava-o de novo por cima do cobertor. Ele, então, novamente se virava.

Acordamos cedo. trabalhamos um pouco juntos. Antes de ele sair, treinamos alguns golpes. Na despedida, nos abraçamos e beijei-o na bochecha, hábito que tenho apenas com ele, pois em geral não me sinto à vontade em beijar caras no rosto. Olhei em seus olhos e disse: "desculpe pelos testes de ontem". Ele sorriu calado, nos abraçamos novamente e foi embora.

Em seguida, silêncio. Fiquei zonzo e vim escrever. Afinal, saí na chuva quando a gripe ainda não estava completamente curada e precisava me secar antes que piorasse.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Um começo que não é começo...

Aqui início meu blog. Início é modo de dizer, pois as idéias aqui descritas já há muito circulam em minhas veias e artérias, mas aqui começo a jorrá-las para fora de mim.

Demorou para eu aceitar ver meu sangue de idéias compartilhado de tal maneira, mas como tudo, isso vem abraçado a um propósito. Quero me entender melhor, cada vez melhor e, vivendo em um mundo heterossexual, com interlocutores restritos, vejo o blog como uma possibilidade.

Aqui falarei um pouco do passado, do presente, do futuro, por vezes de modo amalgamado. A princípio, o leitor pode se perder nessas idas e vindas, mas estou certo que, após algumas semanas de acompanhamento, saberá quando ocorre e o porquê de isso ocorrer. Afinal, meu passado, em tudo que fui e fiz, aliado ao meu futuro, pelo que quero ser e fazer, são os grandes ditadores do que sou e faço.

E por que iniciar a postagem justo hoje? Simples. Há 2h saiu um cara de casa e há 48h, uma garota. O que tinham em comum? Ambos dormiram comigo, ambos saíram sorridentes, ambos nunca saberão muito sobre mim e têm plena noção disso, e a saída de ambos de casa foi um alívio tremendo para mim.

É triste, mas me sinto muito vivo durante a conquista, mas, depois de atingidas as metas, ao me sentir no controle total da situação, me resta somente um vazio e me sinto aliviado quando, após um contato mais íntimo, fico sozinho. É uma ânsia, uma necessidade, um vício.

Isso é ruim? Sinceramente ainda não sei. Socialmente é visto de modo pejorativo. Mas quem sabe até que ponto todos não o sentem, apenas se convencendo de que não é assim. Por isso quero o diálogo, porém sem escolher os interlocutores, para não me fechar em meu próprio círculo de idéias. O anonimato e a grande rede me proporcionam isso.

Finalizo a postagem de hoje sem fatos específicos, mas com um pouco do que sou: um cara normal entre 20 e 30 anos, que curte sair, tomar uma cerveja com amigos, que viaja porque gosta e porque assim pode respirar um pouco do sufoco diário, que atrai e é atraído por pessoas de ambos os sexos e que não se sente à vontade para que as pessoas de seu convívio saibam disso. Enfim, sou um cara do bem, com todos as suas qualidades e defeitos, e convido você a participar um pouco de meu cotidiano.

Seja bem-vindo!